Quando foi que nos tornamos sectários?

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Mário Ferreira dos Santos

Pesquisar filosofia, para mim, é uma atividade que tem um efeito colateral interessante: por meio de obras dos mais diversos autores eu acabo, por diversas vezes, encontrando palavras que descrevem sensações e intuições que me são bastante pessoais. Muitas convicções que tenho não possuem um discurso pronto que as justifiquem… ficam no terreno cinzento que vai do empirismo das experiências pessoais não digeridas até os pré-conceitos e hipóteses provisórias que são adotados pela impossibilidade de resolver todos os problemas pessoais e epistemológicos que me aparecem e interessam.

Um deles vem comigo há alguns bons anos, e eu o colocaria mais ou menos nos seguintes termos: talvez o pior problema da nossa época é a sua tendência ao sectarismo. Vivemos tempos absurdos, no sentido que Camus dá a essa expressão (e cientes do paradoxo que é dar sentido à expressão “tempos absurdos”), onde estando as pessoas desligadas da tradição de um fundo social/ideologico/religioso comum, suas referências, vivências e ideias não são intercambiáveis. Desse modo, os diálogos tornam-se diálogos de surdos, ou discursos sem plateia onde a possibilidade de compreensão mútua beira o zero.

A significação dada para os diversos signos em circulação é, ao mesmo tempo, banalizada pela propaganda e pelas ideologias e tornada única pela ausência de um chão comum de normalidade onde possa ser encontrado um denominador comum. Esse denominador já existiu na civilização ocidental e existe no oriente (e por isso o problema do sentimento do absurdo é, novamente citando Camus, característico da modernidade ocidental). Nos falta normalidade até para as discordâncias e disputas políticas.

Essa normalidade era entendida no ocidente como uma característica Católica – não apenas da prática da religião Católica, mas de uma cultura que moldou e foi influenciada pelo catolicismo, na formação de sociedades baseadas em ideias, ao invés de em classes, raças ou castas. Há espaço para a diversidade dentro desse caldo cultural pois o fator de união que o possibilitava não era calcado em diferenças, mas em valores, tidos por objetivos e que uniam na sua aceitação as diferenças que, na modernidade, nos tornam sectários. Esse fundo, na filosofia, recebe o nome de tradição, mas pode ser chamado simplesmente de civilização.

Aqui entra a parte do que, para mim, era uma intuição: a nossa sociedade está se tornando mais e mais sectária. Arroubos de intolerância afirmados em tom professoral são repetidos às pencas nas cátedras, na imprensa, nas ruas. Na ausência de um fundo comum de convivência, cada feudo ideológico se fecha em suas verdades absolutas e se torna, assim, incapaz de dialogar com o diferente. Essa impossibilidade reside na total ausência de referências comuns para que as palavras usadas nas discussões tenham sentidos semelhantes entre os contentores. O universo de imagens e referências de cada grupo, separado daquilo que era o chão comum da civilização ocidental, torna-se caótico e o diálogo possível é aquele dos personagens de Kundera.

Há não apenas arrogância e desespero no ar. Há ódio. A sensação que tenho é a de que estamos sentados sobre um barril de pólvora prestes a explodir, cercados de feiura e grosseria, de ressentimentos e medos. Cada um fechado na sua seita, dialogando dentro da própria tribo num diálogo de iniciados que é muito característico da sociedade tribal. A tribo é o oposto da civilização. O sectarismo é o resquício de barbárie que ressurge do esgarçamento do tecido social.

Palavras minhas aqui são as de desconforto e estranhamento. A relação disso com civilização e barbárie eu encontrei, como numa chave de leitura para minha própria inquietação, numa obra chamada Invasão Vertical dos Bárbaros, do filósofo Mário Ferreira dos Santos.

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Essa mesma ideia do sectarismo como sinal de barbárie e sintoma de decadência da civilização aparece, quase que de forma monótona, em Ayn Rand, Camus, Flusser, Ortega y Gasset… autores do mesmo período e que chegaram, por caminhos diferentes, à mesma conclusão: a vida na tribo é bárbarie, e a característica da barbárie é a vedação do diálogo. O critério dos Romanos para definir o que era barbárie era o linguístico. Quem fosse capaz de dialogar com eles seria capaz de ser absorvido pela civilização. Os costumes, as leis, a história, a religião e os valores do império poderiam ser transmitidos desde que a comunicação fosse possível.

Mas esses dias já vão longe. Hoje temos a intolerância da política dos afetos, onde grupos com as ideologias mais bizarras tentam se impor pela força e pelo grito, pela intimidação e pelo consenso de grupo. Brigam pelo controle de posições de poder para estabelecer o ritmo e o teor das comunicações (já escrevi sobre isso aqui no blog), brigam por controle das ações nas ruas e por hegemonia nas posições-chave do Estado. Não há convencimento, não há consenso – não há sequer a possibilidade do diálogo.

O regime democrático atual é apenas nominal. Os sectários das igrejas, das ONGs, da sexualidade, da bicicleta, da natureza organizam-se não como povo, mas como estamentos, do mesmo modo que funcionava a assembleia dos estados gerais na França pré-revolucionária. Um número sem fim de afetos inegociáveis sobrepõe-se sem diálogo, buscando adeptos por meio da propaganda num sufragismo que emula a ágora sem apresentar as condições que a tornaram possível.

O espaço público democrático é o oposto da política sectária dos afetos. Na sua origem, era o espaço do homem livre que, por uma adesão à cultura vigente, deixava seu espaço privado – seus afetos – para discutir os temas de interesse geral, ou seja, daquele fundo de espaço comum que sustentava e protegia justamente a prática dos afetos. Ou seja, o espaço democrático é uma ferramenta civilizacional que foi colocada à serviço da barbárie. Pela ausência de homens livres, reuniu-se a assembleia dos escravos.

Fiz menção à França pré-revolucionária pois o ar que respiro é o de quem vê a iminência de uma guerra civil. Sem falar nos nossos 60.000 mortos por ano, que tecnicamente significam guerra civil, esse caldo de ódio e ressentimento – que causa e é consequência do sectarismo e da barbárie que ele anuncia – vai causar ainda mais violência, grosseria e feiura.

E qual seria então a solução? Um novo esforço civilizatorio? Claro, mas sob qual universalidade? O que há de comum entre as seitas para que delas saia algum consenso? Além disso, nos interessa uma solução? Ou a guerra de todos contra todos, a atomização dos indivíduos girando em torno do nada explodiria o problema de forma muito mais eficiente? Tornemo-nos nietzschianos e vamos exultar a morte do último homem? Festa universal da queda??? Não tenho resposta para isso…

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Autor: Rafael Pereira

Guitarrista amador, doutorando em filosofia, chefe escoteiro e frequentador da Vila Capanema.

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