Sobre ilhas, animais e termodinâmica

(Diário da insônia, parte 20)

1 – Passamos para a fase da decadência revolucionária onde filmes e livros são queimados, estátuas e quadros destruídos… alguma iconoclastia sempre esteve presente na cultura humana. Mas em fases menos decadentes, ela vinha acompanhada por um ímpeto criador. Destruir para recriar – processo do niilismo ativo descrito por Nietzsche na dinâmica entre Apolo e Dioniso.

2 – O “novo” nos acontecimentos atuais é que não há recriação. Os animais que estão destruindo estátuas bonitas não são capazes de fazer sequer uma estátua feia. Os filmes “cancelados” não são substituídos por novos filmes ou outras formas de expressão que substituam o cinema. Com sorte, os canceladores dirão ter visto (sem terem visto de verdade) algum filme alternativo ruim sobre má consciência, financiado por algum governo (pois ninguém pagaria para filma-los ou assisti-los).

3 – As vidas imperfeitas mas importantes representadas nessas obras precisam ser apagadas – isso pelas mãos de burgueses culpados e frustrados, cuja maior aventura seja um mochilão de risco calculado em algum país exótico. Burgueses esterilizados e histéricos, que se sentem na posição de julgar e condenar os atos do passado – agora resolveram “cancelar” Churchill por nazismo (caralho, como podem ser tão burros).

4 – Pois bem. Se os aventureiros, artistas e políticos do passado não prestam, então quais são (ou serão) os que prestam? Quem são os novos cineastas, músicos, escultores, aventureiros e heróis dos novos iconoclastas? – A comparação de si mesmo com um futuro hipotético é covarde. Como escreveu Chesterton, podemos imaginar um futuro a ser moldado, mas o passado foi vivido por pessoas reais. Não dá pra imaginar um Platão burro, uma Joana D’arc covarde, um São Luis mesquinho… essas pessoas e o que elas representam acabam funcionando, de alguma maneira, como um espelho – afinal, elas eram pessoas também, e se elas conseguiram fazer coisas grandes, deveríamos nos inspirar a fazer o mesmo.

5 – O acúmulo das lembranças sobre as vidas dessas pessoas e seus ensinamentos é o que se chama cultura: o cultivo das grandes coisas e pessoas visando a transmissão de sua humanidade para o futuro.

6 – A civilização burguesa-bundamole-mimada não gosta de espelhos. Isso pq ela não quer ser lembrada de sua bundamolice e de sua incapacidade de fazer coisas grandes.- A civilização decadente não é capaz de fazer grandes coisas. Por isso ela é decadente. Os críticos do cinema antigo não querem fazer filmes melhores no futuro, mas sim apagar os do passado, que mostram que seus esforços são estéreis. Os derrubadores de estátuas não querem substituí-las pelas de heróis novos – eles não querem heróis. Eles têm uma vontade de nada (ou um nada de vontade? dá na mesma, Nietzsche?!)

7 – Os putos podem se pegar em idiossincrasias e anacronismos para julgar os feitos dos grandes homens do passado. Obviamente há falhas e imperfeições, pois estes foram homens. Se formos julgar todos os homens e a cultura que estes nos legaram a partir dos valores do presente, vamos encontrar muito pouco a louvar, até por um truísmo: os valores do presente não eram os mesmos do passado.

8 – E mais do que isso: quais são as porras dos valores do presente? Em nome de que ou de quem essas pessoas sentem-se autorizadas a cancelar a civilização? Se tais valores existissem de fato, o movimento do niilismo ativo não teria sido paralisado e essa iconoclastia toda seria até louvável. Mas a vontade de destruir acompanhada da incapacidade de criar é um fenômeno de niilismo extremado que demonstra o fim de uma era e a morte de uma civilização.

9 – Um sistema fechado precisa de energia e trabalho para se organizar. A medida de sua desordem é a entropia. E se a nossa civilização estiver entrando em entropia?

10 – Nós vamos consumir os valores, criações e trabalhos que nos foram legados. Vamos viver dos restos da civilização, como fazem os sobreviventes nos filmes de zumbi. Mas são restos… o nível de atividade intelectual diminuirá até o momento em que, eventualmente, não haverá sequer o que transformar. Quando o último grande autor tiver sido cancelado com as tripas do último grande aventureiro, vamos nos sentar no chão e ficar a encarar o nada.

11 – Essa situação não é nova. Ela apareceu, em nossa história, na transição da Antiguidade para a Idade Média, quando as invasões bárbaras destruíram o Império Romano no Ocidente. A lembrança da civilização foi resguardada em mosteiros e conventos, bem como na sabedoria oral dos trovadores e viajantes. A civilização se recolheu uma vez enquanto a entropia chegava a zero…

12 – Talvez estejamos nos aproximando do momento em que isso voltará a acontecer. Momento em que tenhamos que nos recolher para as ilhas, como no Admirável mundo novo de Huxley. Enquanto os animais tomam as escolas e os espaços na mídia e os monstros queimam livros e estátuas, cancelam pessoas e cospem em suas memórias, alguém terá que guardar essas coisas… nem que sejam alguns livros, filmes e histórias em sua própria casa…

13 – A entropia chega a seu valor mínimo quando todos os processos chegam ao zero absoluto. O zero absoluto, porém, é uma impossibilidade fática, assim como o mal absoluto é uma impossibilidade metafísica. Os animais e bárbaros vão passar… eles sobreviveram até aqui parasitando a cultura e não conseguirão, quando ela desaparecer, passar sem ela.

14 – O futuro está nas ilhas. As ilhas afortunadas, que ficarão nas casas daqueles que sobreviverem ao naufrágio que é a condição da nossa civilização e que tende a se intensificar. Esse paradoxo de um recolhimento ativo, que não vai entregar o que sobrou de legado para os animais enquanto, desesperada, não irá contar com a vitória será a semente de um novo processo de criação e destruição – de valor, de culturas, de grandes homens.

15 – E quanto aos animais? Animais não deixam legado. Serão devorados pelo próprio lixo e desaparecerão da história, como desaparecem sempre os bárbaros – eles não têm o que legar e, por isso, não serão lembrados por ninguém.

Curitiba, junho de 2020

O barco e a angústia

(Diário da insônia, parte 18)

Eu gosto de escrever. Se fosse uma pessoa mais disciplinada, escreveria todos os dias. Já teria publicado livros, contos, antologias poéticas, manuais de direito e filosofia. Já imaginei e projetei uma série de obras primas que nasceram e morreram dentro de minha cabeça sem jamais virem à luz – tenho lá uns 50 textos no meu blog e alguns poucos artigos publicados em revistas acadêmicas, mas em comparação com o número de ideias que já me apareceram, minha produção é praticamente nula.

E isso ocorre por preguiça? Talvez, mas não é essa a resposta mais exata. Eu costumo escrever por necessidade. As boas coisas que escrevi (que eu ache boas, não que elas de fato o sejam – não me cabe julgar o que escrevo) foram textos que nasceram prontos.É a necessidade que faz com que eu precise comunicar algo, e a forma escrita é a mais adequada para mim, por conta até do meu jeito, eu que não sou exatamente um mestre com a palavra falada. Como se uma ideia pronta tivesse a necessidade de vir ao mundo e fizesse de mim seu portador, com a qual ela nada tem a ver e a quem ela nada deve.

Esses momentos são antecedidos por uma necessidade física de me sentar para escrever, e quem convive ou já conviveu comigo já deve ter visto esses momentos em que eu paro tudo, saio de perto das pessoas e vou para o teclado mais próximo para registrar aquilo, antes que se esvaia, antes que a ideia ou a urgência passem.

A sensação estranha, que me faz escrever hoje, é o fato de sentir essa necessidade sem saber exatamente o que escrever. Eu queria, até semana passada, tratar do tema da morte. Ars Moriendi. Achava essa uma discussão interessante para iniciar em tempos de quarentena onde parte das pessoas está desafiando a morte abertamente, o que é tão estúpido quanto dela se esconder em casa com medo. Nessa falta de bom senso coletivo que o mundo vem vivenciando tudo é estúpido, e eu queria jogar algumas palavras inuteis sobre a aflição que esse cenário me transmite… não que eu espere convencer alguém, mas acredito que escrever sobre sensações é bom, porque a escrita delimita, define um problema – nisso o problema, que parece estar em todos os lugares, ganha tamanho, identidade, nome. Mas a ideia passou, atropelada por outros acontecimentos e esse texto provavelmente não será escrito nunca.

Meu orientador no mestrado e doutorado dizia que a escrita é uma ferramenta para nossa negociação constante com a angústia. A angústia, sentimento de falta e incompletude, é uma constante na vida de todos – se não há angústia, não há vida, porque a vida é jogo entre instinto e pulsão morte, e os dois geram incompletudes por definição, a não ser que consagrados pela loucura ou pela vinda da morte. Esse delimitar sensações é, pelo que disse acima, um instrumento de defesa: dar nome as coisas, organizá-las sistematicamente, buscar padrões de repetição e comportamento… tudo isso nos dá segurança e permite que vivamos a vida apesar da angústia e do medo. E esse arranjo funciona, até quando a realidade, que nada tem a ver com nossas aspirações sobre ela, derruba os esquemas e demonstra o quanto nossas construções escritas – ou seja, nossas, racionalizações sobre as coisas – são insuficientes. Nesse caso, nos resta refazer as explicações, recontar as histórias, reescrever os textos e resignificar os símbolos dos nossos ídolos, que são todos de barro e vão, cedo ou tarde, se quebrar.

Escrevi essa mini introdução psicanalítica/existencialista acima e não sei o porque. Acho que a intenção deste texto é aparecer como incompletude, de uma angústia que não tem nome e que não se revela como tal. Talvez um livre fluxo de ideias revele seu objeto, ou mesmo o crie… afinal, se a angústia é uma constante – e creio piamente nisso – podemos associá-la ao que quisermos e essa associação, como toda associação de ideias, é válida até ser atropelada pela realidade. Então minha esperança é que esse texto transmita algo do que sinto e não digo e do que sou e não entendo. A necessidade que sinto de traçar essas linhas inuteis me obriga a isso e espero portanto que me ajude a sair desse texto e dessa hora melhor do que antes.

Eu gosto de escrever. Gosto de me sentir instrumentalizado por ideias que são maiores do que eu. Gosto de servir a ideais que me ultrapassam. Gosto de dividir isso com quem se dispõe a ler o que escrevo. E gosto da ideia de poder manipular sentimentos e sensações ruins e transformá-los em algo melhor. Essa sublimação é o que permite a comunicação humana – afinal, ninguém é tão original e os sentimentos que existem são parecidos para as pessoas. Não dá pra plenamente delimitar um sentimento (Camus dizia que um sentimento tem seu próprio universo), mas é possível que quem padece das mesmas coisas se reconheça nessas expressões e, nisso, sinta que não está sozinho. É a solidariedade possível para quem porta a condição humana – o artista solitário/solidário, para novamente citar Camus (não adianta, não consigo fugir muito dele).

Essa condição toda é boa. Se o sentimento de falta que gera a angústia parar, vamos nos movimentar pelo que? Escrever, poetar, cantar… no fim das contas, estamos todos no mesmo barco, e apenas somos seres humanos por causa disso. Somos animais políticos por problemas de convívio e animais racionais por problemas dos riscos da natureza. Viver é correr riscos, é se expor, é se desapontar… e depois transformar essas experiências em fragmentos de coisas bonitas para mostrar para os outros. Empurrar a pedra, seguir em frente, lutar o bom combate. Arriscar a vida para salvá-la, e não pelo medo de perdê-la. Gosto de imaginar a vida como um barco que não flutua sem sobressaltos, mas também não afunda. Essa imagem não faz muito sentido, mas o texto é meu, então… escrevo nele o que quero

Eu gosto de escrever.

Curitiba, 04 de maio de 2020

Sobre 1964 e a “volta” do AI5

Um aluno me escreveu ontem perguntando o que eu penso a respeito de 1964 e da possibilidade de um retorno do AI-5. Como o tema é complexo e espinhoso, a resposta acabou ficando longa… mais longa do que o normal para um comentário de Facebook. Por isso, resolvi postá-la aqui no blog.

O AI-5 (ato institucional no. 5) foi uma medida tomada dentro do contexto da Revolução de 1964, numa época em que se permitia ao comando das Forças Armadas a determinação de medidas de natureza constitucional – uma vez que as Forças Armadas tomaram o poder, elas se consideravam poder constituinte de fato (AI-1) e tomavam as medidas necessárias para preservar e fortalecer a sua própria revolução.

O contexto político que nos levou ao regime militar é o da guerra fria. Não é verdade que o governo militar nos tenha sido imposto pelos Estados Unidos, mas toda a política interna e externa estavam pautados pelo confronto entre forças (bélicas e produtivas) capitalistas e comunistas. Esse combate ao comunismo, no Brasil, se encontrava próximo a um ponto de ruptura após a ascensão de João Goulart ao poder. Era um governo de pouca legitimidade popular (Jango foi eleito vice-presidente e alçado ao governo após a estranha renúncia do presidente eleito Jânio Quadros) com uma pauta vista pela maior parte da população como subversiva. As Forças armadas intervieram retirando Goulart do poder e assumindo o governo do país. e contavam com grande apoio social para fazê-lo. É difícil portanto falar que 1964 foi um golpe, pelo menos para mim.

Isso pq o caminho da democracia encontrava-se fechado. Não havia naquele momento uma possibilidade de pacificação negociada. Os participantes civis da política estavam em uma linha de radicalização bastante acentuada – Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, governadores do Rio e de São Paulo estavam armando suas polícias para o enfrentamento aos comunistas e seus apoiadores (leia-se, ao governo federal), enquanto Goulart dialogava com a China e com a União Soviética e fazia vista grossa ao processo de armamento e treinamento dos grupos de esquerda que depois, durante o regime militar, iniciaram o processo de luta armada.

Hoje é muito comum ouvirmos que os grupos de resistência à esquerda tinham lutado “contra a ditadura e pela democracia”. Isso é falso. Esses grupos – que originaram o PT e os partidos que orbitam ao redor dele – lutaram pela implementação de um regime de tipo soviético ou chinês, a mando e financiados pelos governos destes países. A resistência democrática que houve ficou por conta de uma parcela de políticos tradicionais filiados ao MDB (o mesmo de hoje) e, em menor número, à ARENA (hoje dividida entre PP e DEM).

A proposta original dos militares era de estabilizar o país, neutralizar a ameaça de esquerda e devolver o poder aos civis rapidamente. No entanto, a escalada revolucionária das guerrilhas de esquerda de um lado, e a ruptura das Forças Armadas com a democracia no final do mandato do pres. Castello Branco (que foi um estadista e, talvez, o melhor presidente da história do Brasil) adiou indefinidamente o restabelecimento das eleições. As forças armadas outorgaram a Constituição de 1967 e se “eternizaram” no poder. Se houve golpe militar, este aconteceu em 1967, e não em 1964.

Marcha da família com Deus pela liberdade

Nesse contexto vem o AI-5, 5o. ato institucional que suspendeu o funcionamento do Congresso Nacional, institucionalizou a censura à imprensa e suspendeu uma série de garantias constitucionais, incluindo o habeas corpus. Como em seguida vivemos o chamado período do milagre econômico, momento em que a economia do Brasil cresceu exponencialmente, para muita gente há uma relação entre a autoridade exercida pelos militares e o desenvolvimento do país, ainda mais porque, após a redemocratização, vivemos quase que 30 anos de crescimento pífio ou recessão.

Apesar dos inúmeros problemas do regime atual, a chamada nova república, não vivemos ainda uma situação de radicalização que demande pela intervenção das forças armadas. É possível enfrentar os elementos que atrapalham o desenvolvimento do país dentro do marco democrático e institucional. A maior dificuldade para fazer isso é que esses grandes nomes da política que fizeram a resistência aos militares são exatamente os responsáveis pelo fracasso da nova república até aqui.

De certo modo, os políticos ligados ao sistema, que os defensores de um novo AI5 combatem, são os mesmos (ou herdeiros desdes) que foram enfrentados pelos militares. Eu entendo quem acredita não ser possível vencer os Maias e Alcolumbres da vida, ou os ministros do STF, que de fato gozam de poder infinito. Mas eu penso que essas pessoas estejam erradas, uma vez que, pelo menos até agora, o enfrentamento pelo caminho das urnas vem sendo respeitado. O caminho para quem apoia o presidente e as mudanças que ele representa é a eleição de uma base parlamentar mais forte nas próximas eleições – o que passa pela eleição de prefeitos alinhados já neste ano.

Além disso, eu realmente não acredito que as forças armadas tenham interesse em promover uma nova revolução. Elas sempre foram leais à nova república e sempre protegeram as instituições da Constituição de 1988… é bem possível que uma tentativa de revolução contra o sistema, hoje, tenha as forças armadas por adversárias e que uma nova ditadura, se vier, irá lançar os bolsonaristas na ilegalidade para proteger petistas, STF e políticos tradicionais do centrão…

Ainda há a questão das influências externas no jogo político atual… se na época da guerra fria, os blocos de poder eram extremamente claros, hoje em dia há um caos de metacapitalistas, transnacionais, entidades internacionais e governos de superpotências disputando o poder mundialmente, e todos eles se fazem representar política e economicamente no Brasil. É até difícil traçar uma linha para saber de que lado todos os atores ficariam no caso de uma tentativa de intervenção militar.

Aparentemente, o presidente Bolsonaro conta com apoio popular e com a simpatia do governo Americano e de outros regimes de direita pelo mundo. Apenas isso. Todos os demais poderes globais estão alinhados, pelo menos no Brasil, contra o que o bolsonarismo representa. Isso inclui imprensa, partidos de esquerda e centro, a maior parte do Supremo, intelectuais e formadores de opinião.

Trata-se de um quadro extremamente complexo, do qual a maior parte das pessoas comuns não faz ideia sequer da existência e que torna a ocorrência de um movimento militar bastante improvável.

SP308 – Rodovia do açúcar

(Ou, se o futuro nos trouxesse o que faltava antigamente???) Diário da insônia, parte 17

01:30 da manhã do dia 1º de Janeiro de 2020, o carro segue colado no asfalto da Rod. do Açúcar, enquanto eu me dirigia a São Pedro para passar o feriado

_ R$3,50 o pedágio… tem moedinhas?
_ espera, deixa eu achar aqui! Achei… Feliz ano novo!

No rádio do carro, Engenheiros do Hawaii, GLM, um dos meus discos preferidos. Janelas abertas, pelo calor e pelos cigarros. Corto o Estado de São Paulo na madrugada do ano novo, pensando nas mudanças e voltas que a vida deu nesse 2019.

Canto alto, com o disco “eu cantaria as cançooooooes, que se fazia de repente: sacro sino compunha, minha sina, tua unha, carne sangue e pús!”

SInto muito, blues! Adeus, tristeza! Adeus vida que não é vida. Adeus radares, correntes, polícias, alarmes. Olho no retrovisor, vejo um carro mais rápido, dou passagem… negocio com o sono, depois de uma noite mal dormida e algumas horas de estrada.

SInto o vento sobre meu rosto, a unidade que perfazem motorista, carro e estrada, que me faz feliz quando dirijo sozinho e sorrio: a vida é boa, a felicidade é possivel e, em determinadas noites, é tão concreta que pode até ser tocada. E esses são os momentos que de fato são reais.

O tempo é composto por uma porções de momentos eternos, que são ligados pela rotina. Os dias comuns são preenchidos com imaginação e histórias simplesmente pq eles existem apenas na medida em que eles ligam os momentos eternos de nossa vida. 2019 foi um ano bom, pq me deu muitos desses momentos eternos. Esse ano que passou deixa poucas memórias de rotina, pq foi pródigo em momentos que durarão para sempre.

Sinto a gratidão, também tão concreta como um corpo. Acendo outro cigarro, aumento o volume. Túnel do tempo, faixa 4 do GLM, toca… canto alto: “o fim do silêeeeeencio, canção que não acabooooou”. O mesmo disco ganha novos significados. Lembro dos fogos, das conversas, dos risos. Das crianças, das minhas crianças, dos momentos de ruptura e dor, dos encontros e reencontros, das alegrias e da esperança.

É para marcar épocas na vida que datas como o ano novo são importantes. Eles fecham ciclos e permitem recomeços. O tempo cronológico, em si, segue correndo… medida do movimento dos corpos, o tempo é uma função do deslocamento do planeta em sua órbita. Ele corresponde ao tempo dos momentos em que nada de importante acontece, e mede nosso envelhecimento e a aproximação da morte.

Mas o tempo das coisas humanas não é dessa natureza. O tempo da eternidade da qual participamos é composto por momentos que podem viver para sempre. Eles marcam uma época. O tempo de um abraço, de um sorriso, de uma viagem. O fim de um silêncio e de um intervalo. Da canção que não acabou – e não acabará. O tempo do qual nos lembramos e lembraremos no futuro, que nada tem a ver com uma quinta-feira no escritório ou uma manhã de terça na fila do banco.

Vejo as luzes de Piracicaba, reduzo a velocidade no trevo de acesso à cidade. Paro no posto, compro um energético, alongo um pouco as pernas. Feliz ano novo, caixa… feliz ano novo, frentista… feliz ano novo, adolescentes que bebem na calçada. Termino a noite do ano mais transformador da minha vida chegando à casa da minha mãe… e também, como em todo esse ano, voltando às origens, ao que seria o meu lugar no mundo.

São Pedro/SP, 1º de janeiro de 2020

Pluralidade de almas e dissolução do eu no Lobo da estepe, de Hermann Hesse

Amigos,

segue link para artigo de minha autoria publicado ontem na revista Sísifo. Trata-se de uma leitura do romance O lobo da estepe, de Hermann Hesse, desde as obras O fim de uma ilusão, de S. Freud e A Gaia Ciência, de F. Nietzsche.

http://www.revistasisifo.com/2019/06/pluralidade-de-almas-e-dissolucao-do-eu.html?m=0

Notas sobre o debate Zizek / Peterson

Notas sobre o debate Zizek / Peterson

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– acompanhar o debate foi problemático. É muito difícil entender o inglês do Zizek, e as legendas de google tradutor que foram disponibilizadas também não ajudam muito.

– o tema do debate era capitalismo, marxismo e felicidade. Eu não escolheria os tópicos dessa forma. O capitalismo não tem uma condução racional da mesma forma que tem o marxismo. São fenômenos de natureza distinta. O marxismo tem o capitalismo por pressuposto, e se opõe fundamentalmente à distribuição do capital enquanto expropriação de riqueza e como elemento gerador de alienação, mas não necessariamente se opõe à prática ou à vida dele advinda.

– O marxismo carrega 150 anos de posições teóricas e movimentos políticos. Ele parte dos escritos de Engels e Marx e do Manifesto, mas nem de longe esgota-se na discussão ortodoxa dos autores.

– Peterson faz sua fala baseando-se nas premissas implícitas do Manifesto. Ele acreditou que estava a se deparar com um militante do marxismo ortodoxo, e fez uma suficientemente competente análise das limitações e contradições do Manifesto enquanto intenção original de seus autores.

– No entanto, o próprio Manifesto já prevê que a luta comunista adapta-se no tempo e no espaço conforme diferentes inimigos e conjunturas. O problema maior dos marxistas clássicos é justamente esse “protestantismo” de fidelidade à letra das obras de Engels e Marx, deixando de lado a dialética e o espírito do tempo em que a luta revolucionária se desenrola. Peterson não se atentou a este fato em sua fala inicial, tendo que retornar a ele após ser provocado por Zizek.

– Peterson efetuou uma defesa – a meu ver acertada – da superioridade do capitalismo sobre as tentativas históricas de implementação do socialismo. Afirmou que foi justamente o progresso material propiciado por 2 séculos de desenvolvimento capitalista que permitiu a ascenção da qualidade de vida das camadas mais pobres da população.

– Peterson também afirma que a desigualdade acarretada pelo capitalismo não é propriamente um problema capitalista. A desigualdade é inerente à natureza, que se organiza hierarquicamente. Sempre houve desigualdade e sempre haverá, e este é um problema (ou uma condição) biopsicológico que não pode ser atribuído a um sistema econômico qualquer.

– A fala de Zizek parte de uma análise de dois dos três termos que embasam o debate.

– Sobre a felicidade, Zizek afirma que esta é um efeito colateral e não um objetivo. Buscar a felicidade, construir uma teleologia da satisfação, é um dos problemas da pós-modernidade. A busca pela felicidade causa infelicidade, e as pessoas têm mais capacidade para sabotar a própria felicidade do que propriamente em persegui-la. Peterson concordou e reforçou esse ponto em dia réplica.

– Outro problema pós-moderno apontado por Zizek é a questão da crise de autoridade. Com a perda do sentido da existência ocasionado pela crise do Ocidente, são as instâncias de autoridade que se vêem questionadas. Deste modo, o pós-moderno é incapaz de obediência pois não reconhece o caráter legítimo ou sagrado das instâncias sociais. Peterson também concordou e desenvolveu este argumento em sua réplica.

– Deste modo, para Zizek, o atual discurso político conservador (neocon) é também ele um discurso performático pós-moderno. Donald Trump simboliza perfeitamente esta contradição, assim como a oposição a ele levantada pela esquerda. Pois a ascensão de Trump demonstra claramente uma perda de controle de narrativa, uma perda de autoridade e legitimidade.

– A questão das narrativas importa diretamente ao que Zizek conceitua por ideologias… para ele, trata-se das histórias que contamos a nós mesmos para fazer o que fazemos. A autoridade do historyteller é fundamental para a compreensão da ação política pós-moderna, justamente pelo fato de que não há nada para além de narrativas dada a ausência da autoridade.

– Zizek critica a noção de marxismo cultural. Para este autor, a depravação pós-moderna é resultado da alienação capitalista.

– Eu concordo com a crítica a Zizek, mas não quando este diz que Marxismo Cultural é uma mera projeção dos conservadores a um inimigo inexistente. Não. Assim como o marxismo, originalmente, adota a praxis capitalista, ele em sua versão mais contemporânea, adota a alienação e a decadência como estratégia revolucionária. A ideia de subverter a sociedade não mais pela luta de classes, mas pela aceleração da decadência está presente de forma textual desde Gramsci e da Escola de Frankfurt.

– O problema é que a Revolução se colocava especificamente como meio de enfrentamento da alienação. Era para fazer deter a degeneração e a atomização dos trabalhadores em lumpenproletariat que o movimento comunista se erigiu em primeiro lugar. Essa mudança de estratégia que transformou o debate de classes em luta identitária leva a uma concordata entre o as esquerdas e o grande capital. Isso me aparece claramente no apoio que as grandes empresas e a indústria cultural prestam às causas identitárias… ambos buscam alienar a população. Capitalistas para melhor explorar o trabalho, marxistas para minar vínculos sociais que freiam e contrapesam a revolução.

– Zizek vê sinais dessa concordata na ascensão da China. O país reúne capitalismo e marxismo de modo radical, em suas vertentes mais rejeitadas pelo pensamento liberal americano e europeu. Eles reúnem o capitalismo selvagem com o controle estatal rígido. A pergunta quanto à felicidade da população sob tal regime fica em aberto… posteriormente Zizek afirma que não vê essa aliança com bons olhos, e questiona-se sobre a possibilidade da forma chinesa ser replicada em outras potências capitalistas.

– Zizek ainda abre uma discussão interessante sobre a questão da natureza e da hierarquia. Diferentemente de Peterson, Zizek afirma que o que existe na natureza não são hierarquias rígidas, mas improvisações. Que o impulso hierárquico é contrabalanceado pelo caos, em um jogo de acerto e erro cuja manifestação hierárquica dá-se a posteriori.

– Essa questão da natureza é um dos problemas que há tempos me incomodam e sobre os quais eu venho ensaiando escrever há alguns anos. A natureza não é hierárquica ou improvisada. A natureza simplesmente NÃO É. É um não lugar, um não cognoscível, um nome para o que está fora da esfera do humano. Culturalmente, a natureza não existe… como escreveu Ortega y Gasset nas Meditações do Quixote, “as árvores não permitem ver o bosque”. Onde quer que haja presença humana, há um esforço de conhecimento objetificante que esteriliza seu objeto – há cultura visando civilização, como diria Spengler. Ver a natureza em função da ordem ou do caos é antropomorfizá-la. Não há nada disso na natureza, pois essas ordens são estritamente não naturais. A maior parte das discussões sobre natureza – do naturalismo em arte ao fascismo ecologista dos últimos anos – trata de idílios que nada dizem sobre a substância do problema, e isso ocorre pq o problema não tem substância alguma… é só outra história de historyteller, outra afetação moderna e pós-moderna.

– Zizek ataca também o politicamente correto, ao mesmo tempo em que define um igualitarismo. Paradoxalmente, para este autor, a igualdade permitiria o surgimento de um espaço para a criação das diferenças – diferenças hierárquicas, inclusive. Enquanto isso, o capitalismo em sua forma atual aliena e mata a diferença em seu processo de massificação cultural. Concordo com a crítica à massificação sob o capitalismo, mas não vejo como a tendência igualitária levaria à criação desse espaço para a distinção.

– Acredito que distinção é um traço de nobreza de caráter: o de quem dá vazão às suas peculiaridades e, pela contemplação e pela prática do que admira e ama, passa a diferir das outras outras pessoas. É um traço de caráter, que se torna mais ou menos visível conforme a sociedade esteja ou não estratificada hierarquicamente. Mas na opção entre capitalismo e socialismo, ambos calcados em sociedades de produção e consumo, faz muita pouca diferença – nenhum dos dois “regimes” podem ou querem fazer de fato algo para acabar com as massificações. E por isso – e isso é parte da aliança escrota entre capitalistas e socialistas hoje – que o discurso politicamente correto aparece como discurso dominante de nossa época.

– Como solução para a aliança “chinesa” de capitalismo desenfreado e autoritarismo, Zizek acredita que técnica e poder deveriam ser separados. Pelo que entendi, da mesma forma que religião e estado o foram. Ou como economia e estado deveriam ser para Ayn Rand, por exemplo. Não há solução democrática simples para a crise do capitalismo e da civilização.

– Ao falar de marxismo (sobre o qual Zizek falou muito pouco – como bem notou Peterson), Zizek diz que, paradoxalmente, a biogenética e o uso extensivo da eletrônica permitem o sonhado surgimento do novo homem pugnado pelos marxistas. E que isso pode levar à uma nova ordem mundial, mas não uma ordem necessariamente desejável… uma ordem distópica de controle e reprogramação, de destruição ambiental, de catástrofe.

– Zizek termina afirmando que a catástrofe é inevitável e que caminhamos para a destruição ambiental e para o autoritarismo tecnocrático, seja pela esquerda ou pela direita. Peterson tenta ser mais otimista, apresenta alguns dados para tal… espero que ele esteja certo. Nesse ponto eu concordo com o Zizek.

Para mim, os aspectos mais interessantes do debate foram laterais. A discussão sobre o estatuto da felicidade e da natureza, bem como o paradoxo da insolubilidade do problema pelos marcos democráticos burgueses. Isso é parte da crise. Capitalistas e marxistas (sejam ortodoxos ou pós-mods) não têm soluções a apresentar. Eu, enquanto cristão, acredito que a solução não é deste mundo, então me limito a descrever o que vejo e a esperar a Parusia (ou o meteoro, sei lá).

As armas

Mais um dos meus “poemas”.

Comecei a escrever duas músicas, que se chamariam As armas e Às armas, como parte de um projeto que rolou entre 2010 e 2013. A ideia veio em 2010, o texto começou a ser escrito em 2013 e ficou de lado até… hoje, quando o reencontrei e tentei terminá-lo. Essa é a primeira parte.

Uma versão da letra de Às armas foi escrita em 2012, mas a perdi…
A música que acompanha essa letra também foi perdida.

Towton1

I

as armas escolhidas
para batalhas não lutadas
são as facas afiadas
ou as pistolas mal polidas
e no dia do duelo
pelo bem e pelo belo
o passado é engolido
e o futuro vem aberto

perto de tudo, longo, contido
o grito suspenso, o zelo
contudo guardado à seco,
seja longe, esteja certo

_ com certeza alguém vai respirar amanhã

II

mesmo sol que vai passar
mesmo mar nas mesmas praias
se há muito amor aí
alguém vai ter que reparar
ou gastar a própria vida
a medir o cumprimento das saias
(ou o volume das vaias)
e contar o ar pra expirar

com as armas corta, perfura
estilhaça, aniquila, tortura
depois sai, satisfeito
por onde como, como me deito

_ e se tudo estava certo desde o início?

III

vem duelo, sacrifício
desse suplício métrico
por tudo que é tétrico
ou soa como rima, forçada
deixa o sangue, o dedo médio
deixa tudo na calçada
ou na escala do seu tédio

longe de casa, com sono
sem abandono ou espada
com futuro e sem um dono
sem o peso e sem mais nada

_ alguém vai ter que reparar

São Paulo, 2013
Curitiba, 2019

Sobre a liberdade de Deus e do homem

um texto atrasado de Natal

Caravaggio
O nascimento de Jesus, por Caravaggio

Você já tentou escrever um poema? Ou um conto? Um romance? Eu já fiz um bocado dessas coisas… hoje não muito, até por compromissos acadêmicos e profissionais que me custam um ativo valioso: tempo… mas já passei preciosas horas da minha vida a escrever.

Uma das coisas estranhas na experiência da escrita é que, nos bons momentos de criatividade, os versos, personagens e as ações que ali são narradas correm livremente. São por mim causadas, mas não definidas. Um bom romance, creio eu, requer essa liberdade dada pelo escritor ao personagem e pelo poeta ao verbo.

Não falo de escrita libertária: escrita de tese, seja lá qual for a tese, é literatura desumana e, portanto, desinteressante… Falo da impressão que sinto, quando escrevo, de que aquilo que foi por mim criado me é surpreendente… que me é novo. Falo da sensação de não reconhecer minha presença em minhas criações pois elas, quando bem feitas, praticamente dela prescindem. Sou delas causa eficiente, mas sua forma dá-se na tensão das necessidades da própria história do ser criado e na autonomia que a liberdade criativa exige.

Meus textos são meus, mas de mim são livres. Meus personagens e versos devem toda sua liberdade à minha criação… mas não me devem nada e, a descrevê-los, eles recebem o que merecem conforme sua própria liberdade, que me parece incontestável.

É um paradoxo sim… um paradoxo que deve sua descrição, em escrita, à experiência de quem também escreve. Quem também tem esse hábito entende que é assim… quem não o tem vai ter que passar batido por esse texto ou tomar minhas palavras pelo que elas dizem. Mas, penso eu, esse paradoxo do escritor também tem raízes mais profundas na experiência espiritual dos homens.

O problema é uma das discussões clássicas da filosofia sobre a liberdade humana face ao poder de Deus. Ele aparece de forma mais ou menos acabada na Grécia tardia, pronunciado pelo filósofo Epícuro:

“O paradoxo ataca a crença das 3 qualidades de Deus nos seguintes termos:

1) Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é benevolente.
2) Enquanto onipotente e benevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente.
3) Enquanto onisciente e benevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente.”

Uma das consequências da discussão deste paradoxo, apesar de nele não estar descrita, é a de que, face a um Deus onipotente e onisciente, não existe liberdade humana. Deus sabe o que fizemos no passado e o que faremos no futuro. E como ele nos criou, ele o fez para que fizéssemos exatamente o que ele quis .

Deste modo, religiões, moralidade, bondade são pleonasmos: os bons fazem a vontade de Deus, assim como os maus. A vontade é cega e se desdobra na mera completude dos tempos: este é o melhor dos mundos possíveis (pelo caminho de Leibnitz) ou a materialização da vontade universal (pelo caminho de Hegel). Tudo se destina à completude de um projeto político (pelo caminho de Marx) ou então vagamos no jogo cego da vontade (Freud, Schopenhauer, Nietzsche…)

Se não é assim, é pq Deus não pode impor sua vontade e, não o podendo, ele não é Deus. Esse raciocínio tem muitas ramificações conscientes e inconscientes nas ideologias filosóficas e, consequentemente, nas políticas modernas: nos coloca na dicotomia moderna da teleologia totalitária ou do caos niilista. Mas não leva em consideração um aspecto: o do paradoxo do escritor que apresentei aqui.

Um escritor necessariamente encontra-se fora do tempo. O tempo literário de sua criação é parte da criação. Mesmo nas obras realistas mais “duras”, o recorte descritivo do tempo real é qualitativo, e não quantitativo. O tempo e o clima (cronos e kairos) de uma obra são parte desta e o escritor, enquanto causa eficiente de ambos, encontra-se do lado de fora. E ele não pode penetrar neste espaço. A fronteira para o escritor é intransponível: seus personagens ou versos habitam um espaço que, apesar de intimamente pertencente ao escritor, estará para fora dele e será, uma vez criado, sempre impenetrável.

La dentro, o que acontece é um jogo entre as muitas possibilidades contidas na sensibilidade e na capacidade de expressão do artista. E esse jogo começa de forma guiada, segura, planejada… mas em algum ponto do processo a coisa toma vida própria. Os personagens participam do ser de seu criador, mas como ele não se confundem – eles existem, não são (ex-sistere… aparecimento)

Não consigo imaginar Dostoiévski a escrever friamente as palavras de Aliocha ou Ivan… como em um plano de obra, onde haverá uma catarse com hora marcada. Não consigo imaginar Camus a planejar de forma calculada a explosão de Meursault junto ao capelão ou Wilde fazendo cálculos na produção da Balada do Cárcere de Reading… são potencialidades desses seres que, em momentos de genialidade (um acaso feliz, segundo Nietzsche) irrompem na existência e veem à luz como novidade.

A escrita de valor é escrita com sangue… O sangue aqui é espírito. Mas o sangue que corre nas páginas dos romancistas e poetas não é o deles mesmos. E também não é sangue metafórico, força de expressão. Trata-se da espontaneidade das humanidades reais, expondo situações que tocam a profundidade do ser em situações-limite, catarses e paixões. São liberdades, que dependem de um criador mas que agem apesar da criação. O criador não está no tempo para determinar as escolhas e caminhos, embora possa fazê-lo quando assim o desejar…

Do ponto de vista do personagem, o tempo do escritor é a eternidade. E a intervenção da eternidade do tempo só pode ser considerada milagrosa.

E o que isso tudo tem a ver com o Natal?

Nas palavras do teólogo Hans Urs von Balthasar, “O Natal não é um evento na história, mas a invasão da eternidade do tempo”.

O milagre do Natal passa pelo fato de que o Criador deste mundo faz aquilo que o artista criador de mundos não pode fazer: ultrapassa a barreira dos dois tempos que o separam de sua obra. Deus não apenas se faz homem, entrando na cronologia do nosso mundo enquanto personagem, mas também entra no tempo existencial humano ao viver uma vida humana – nascer, ser cuidado por uma família, aprender, crescer em sabedoria, trabalhar, passar por privações, provações e angústias, dores físicas e morais até experimentar a morte. Ele torna-se personagem de si mesmo e, pelo mesmo expediente, torna todos os personagens autores de si mesmos…

A eternidade invade o tempo e o tempo torna-se eterno… tudo isso porque nasceu uma criança em Belém: O próprio Deus se faz personagem de sua obra. Isso confirma a liberdade dos seres existentes nesta obra. E, ao confirmar tal liberdade, transforma o homem sua vida em uma grande aventura: pois apenas onde há riscos e possibilidades reais há aventura de verdade. Alegrias, dores, angústias, gozos… tudo não previsto por um Deus que limita nossa liberdade, mas sim criado por um Deus que, ao fazê-lo, a possibilita.

Curitiba, dezembro de 2018

O elefante na sala

ou A idade da razão – um problema de fundo nas discussões sobre educação pública.

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Pra mim, todo o problema da educação pública está colocado no dilema do Prof. Mathieu, protagonista do romance A idade da razão, de J-P Sartre: o professor é, ao mesmo tempo, um subversivo e um funcionário. Subversivo pois tenta implementar uma quebra de tradição entre os conhecimentos e ignorâncias que o aluno traz desde suas vivências, e funcionário pq o faz a soldo do poder enquanto trabalha em uma instituição regulamentada e que visa formar súditos e trabalhadores, e não livres pensadores…

O estado, o capital e os partidos já se apropriaram dos questionamentos radicais ideológicos. Esses geram dissensão na sociedade, e a dissensão é boa para o poder. Famílias desfeitas, solidariedades traídas, politização de afetos… tudo isso é vendido como material altamente revolucionário, mas só serve para conformar o indivíduo ao poder. Dividir para governar, alienar… o truque mais velho do mundo, segue sendo repetido pelo poder por um único motivo: ele funciona!

O professor-doutrinador, esse estelionatário, acredita estar formando cidadãos críticos. Na verdade, ele só forma consumidores e empregados. Pensa combater o sistema, enquanto o alimenta… o mundo precisa de mais lacradores! Afinal, os hambúrgueres não se fritam sozinhos! (ainda) Os filhos de famílias desfeitas revoltados “contra tudo que está aí” não tem NENHUMA instância intermediária entre a ação do capital e do estado e a própria existência. Nenhum grupo de apoio, nenhuma ajuda, nenhum patrimônio…

A verdade doída, o elefante na sala, é o seguinte: o poder estabelecido JAMAIS irá manter uma instituição que objetive sua crítica e superação. A educação pública, nos termos sonhados pelos doutrinadores de plantão, é uma contradição em termos… o aprendizado é autodidata, mesmo quando ocorre em sala de aula. Bons professores guiam nesse processo os (muitas vezes poucos) interessados.

Qualquer coisa além disso é subserviência.

 

Curitiba, novembro de 2018

O meteorito (terror da história)

Sobre o Museu Nacional…

Acabei de ler que dois meteoritos expostos desde 1891(!) sobreviveram ao incêndio. As condições de sua chegada ao país foram mais traumáticas do que as de um mero incêndio. Fósseis com milhões de anos, múmias com milhares, obras de arte e arquitetura com centenas não tiveram a mesma sorte…

Apagamos, em uma única noite, uma página imensa da história do Brasil. A cabeça do T-rex, as múmias articuladas, a Luzia, estrela das exposições dos 500 anos do Brasil!!! Me lembro das filas quilométricas para a exibição do molde de seu crânio na exposição Br500 no Ibirapuera em 2000. Tudo isso virou cinzas… Itens que, na natureza, duraram milhões de anos, não foram páreos para a barbárie do estado e do povo brasileiro.

Isso me faz pensar no meteorito… ao saber da sua sobrevivência, não pude deixar de pensar que seria poético seu retorno ao espaço. Que essa rocha retome seu rumo orbital ou errante no cosmos. Que ela volte a se chocar contra a Terra algum dia – isso vai acontecer mesmo, mais cedo ou mais tarde seremos atingidos por um meteoro… mas seria justo e poético que ESSE meteorito fizesse o serviço, que ELE voltasse para apagar da existência essa civilização de gente invejosa e mesquinha.

Certamente a cultura do resto do mundo não sentirá falta de nós, até pq boa parte daquilo que tínhamos por legado foi queimado hoje. Sem futuro, agora também não temos mais passado… estamos todos presos numa perspectiva de eterno presente, de terror da história.

A expressão “terror da história” é de Mircea Eliade. Ele fala dos povos que, desligados de suas perspectivas tradicionais, de seu lugar do mundo, de seu centro e elán, vagam pelo mundo desesperados pela falta de sentido de uma existência que, ao vir de lugar algum, também a nada se dirige. Resta o presente. Cumprir obrigações e rotinas a troco de nada. Viver para sobreviver, sem esperança, sem necessidade, sem um telos.

Vemos isso todos os dias… no desespero dos good vibes e carpe diem, na violência reinante, na barbárie da mídia e da política. E é triste… pq eu vivo aqui, pq meus filhos vão crescer aqui. O terror da história é torcer contra a vinda do meteorito, mas secretamente esperar sua chegada.