As armas

Mais um dos meus “poemas”.

Comecei a escrever duas músicas, que se chamariam As armas e Às armas, como parte de um projeto que rolou entre 2010 e 2013. A ideia veio em 2010, o texto começou a ser escrito em 2013 e ficou de lado até… hoje, quando o reencontrei e tentei terminá-lo. Essa é a primeira parte.

Uma versão da letra de Às armas foi escrita em 2012, mas a perdi…
A música que acompanha essa letra também foi perdida.

Towton1

I

as armas escolhidas
para batalhas não lutadas
são as facas afiadas
ou as pistolas mal polidas
e no dia do duelo
pelo bem e pelo belo
o passado é engolido
e o futuro vem aberto

perto de tudo, longo, contido
o grito suspenso, o zelo
contudo guardado à seco,
seja longe, esteja certo

_ com certeza alguém vai respirar amanhã

II

mesmo sol que vai passar
mesmo mar nas mesmas praias
se há muito amor aí
alguém vai ter que reparar
ou gastar a própria vida
a medir o cumprimento das saias
(ou o volume das vaias)
e contar o ar pra expirar

com as armas corta, perfura
estilhaça, aniquila, tortura
depois sai, satisfeito
por onde como, como me deito

_ e se tudo estava certo desde o início?

III

vem duelo, sacrifício
desse suplício métrico
por tudo que é tétrico
ou soa como rima, forçada
deixa o sangue, o dedo médio
deixa tudo na calçada
ou na escala do seu tédio

longe de casa, com sono
sem abandono ou espada
com futuro e sem um dono
sem o peso e sem mais nada

_ alguém vai ter que reparar

São Paulo, 2013
Curitiba, 2019

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Sobre a liberdade de Deus e do homem

um texto atrasado de Natal

Caravaggio
O nascimento de Jesus, por Caravaggio

Você já tentou escrever um poema? Ou um conto? Um romance? Eu já fiz um bocado dessas coisas… hoje não muito, até por compromissos acadêmicos e profissionais que me custam um ativo valioso: tempo… mas já passei preciosas horas da minha vida a escrever.

Uma das coisas estranhas na experiência da escrita é que, nos bons momentos de criatividade, os versos, personagens e as ações que ali são narradas correm livremente. São por mim causadas, mas não definidas. Um bom romance, creio eu, requer essa liberdade dada pelo escritor ao personagem e pelo poeta ao verbo.

Não falo de escrita libertária: escrita de tese, seja lá qual for a tese, é literatura desumana e, portanto, desinteressante… Falo da impressão que sinto, quando escrevo, de que aquilo que foi por mim criado me é surpreendente… que me é novo. Falo da sensação de não reconhecer minha presença em minhas criações pois elas, quando bem feitas, praticamente dela prescindem. Sou delas causa eficiente, mas sua forma dá-se na tensão das necessidades da própria história do ser criado e na autonomia que a liberdade criativa exige.

Meus textos são meus, mas de mim são livres. Meus personagens e versos devem toda sua liberdade à minha criação… mas não me devem nada e, a descrevê-los, eles recebem o que merecem conforme sua própria liberdade, que me parece incontestável.

É um paradoxo sim… um paradoxo que deve sua descrição, em escrita, à experiência de quem também escreve. Quem também tem esse hábito entende que é assim… quem não o tem vai ter que passar batido por esse texto ou tomar minhas palavras pelo que elas dizem. Mas, penso eu, esse paradoxo do escritor também tem raízes mais profundas na experiência espiritual dos homens.

O problema é uma das discussões clássicas da filosofia sobre a liberdade humana face ao poder de Deus. Ele aparece de forma mais ou menos acabada na Grécia tardia, pronunciado pelo filósofo Epícuro:

“O paradoxo ataca a crença das 3 qualidades de Deus nos seguintes termos:

1) Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é benevolente.
2) Enquanto onipotente e benevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente.
3) Enquanto onisciente e benevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente.”

Uma das consequências da discussão deste paradoxo, apesar de nele não estar descrita, é a de que, face a um Deus onipotente e onisciente, não existe liberdade humana. Deus sabe o que fizemos no passado e o que faremos no futuro. E como ele nos criou, ele o fez para que fizéssemos exatamente o que ele quis .

Deste modo, religiões, moralidade, bondade são pleonasmos: os bons fazem a vontade de Deus, assim como os maus. A vontade é cega e se desdobra na mera completude dos tempos: este é o melhor dos mundos possíveis (pelo caminho de Leibnitz) ou a materialização da vontade universal (pelo caminho de Hegel). Tudo se destina à completude de um projeto político (pelo caminho de Marx) ou então vagamos no jogo cego da vontade (Freud, Schopenhauer, Nietzsche…)

Se não é assim, é pq Deus não pode impor sua vontade e, não o podendo, ele não é Deus. Esse raciocínio tem muitas ramificações conscientes e inconscientes nas ideologias filosóficas e, consequentemente, nas políticas modernas: nos coloca na dicotomia moderna da teleologia totalitária ou do caos niilista. Mas não leva em consideração um aspecto: o do paradoxo do escritor que apresentei aqui.

Um escritor necessariamente encontra-se fora do tempo. O tempo literário de sua criação é parte da criação. Mesmo nas obras realistas mais “duras”, o recorte descritivo do tempo real é qualitativo, e não quantitativo. O tempo e o clima (cronos e kairos) de uma obra são parte desta e o escritor, enquanto causa eficiente de ambos, encontra-se do lado de fora. E ele não pode penetrar neste espaço. A fronteira para o escritor é intransponível: seus personagens ou versos habitam um espaço que, apesar de intimamente pertencente ao escritor, estará para fora dele e será, uma vez criado, sempre impenetrável.

La dentro, o que acontece é um jogo entre as muitas possibilidades contidas na sensibilidade e na capacidade de expressão do artista. E esse jogo começa de forma guiada, segura, planejada… mas em algum ponto do processo a coisa toma vida própria. Os personagens participam do ser de seu criador, mas como ele não se confundem – eles existem, não são (ex-sistere… aparecimento)

Não consigo imaginar Dostoiévski a escrever friamente as palavras de Aliocha ou Ivan… como em um plano de obra, onde haverá uma catarse com hora marcada. Não consigo imaginar Camus a planejar de forma calculada a explosão de Meursault junto ao capelão ou Wilde fazendo cálculos na produção da Balada do Cárcere de Reading… são potencialidades desses seres que, em momentos de genialidade (um acaso feliz, segundo Nietzsche) irrompem na existência e veem à luz como novidade.

A escrita de valor é escrita com sangue… O sangue aqui é espírito. Mas o sangue que corre nas páginas dos romancistas e poetas não é o deles mesmos. E também não é sangue metafórico, força de expressão. Trata-se da espontaneidade das humanidades reais, expondo situações que tocam a profundidade do ser em situações-limite, catarses e paixões. São liberdades, que dependem de um criador mas que agem apesar da criação. O criador não está no tempo para determinar as escolhas e caminhos, embora possa fazê-lo quando assim o desejar…

Do ponto de vista do personagem, o tempo do escritor é a eternidade. E a intervenção da eternidade do tempo só pode ser considerada milagrosa.

E o que isso tudo tem a ver com o Natal?

Nas palavras do teólogo Hans Urs von Balthasar, “O Natal não é um evento na história, mas a invasão da eternidade do tempo”.

O milagre do Natal passa pelo fato de que o Criador deste mundo faz aquilo que o artista criador de mundos não pode fazer: ultrapassa a barreira dos dois tempos que o separam de sua obra. Deus não apenas se faz homem, entrando na cronologia do nosso mundo enquanto personagem, mas também entra no tempo existencial humano ao viver uma vida humana – nascer, ser cuidado por uma família, aprender, crescer em sabedoria, trabalhar, passar por privações, provações e angústias, dores físicas e morais até experimentar a morte. Ele torna-se personagem de si mesmo e, pelo mesmo expediente, torna todos os personagens autores de si mesmos…

A eternidade invade o tempo e o tempo torna-se eterno… tudo isso porque nasceu uma criança em Belém: O próprio Deus se faz personagem de sua obra. Isso confirma a liberdade dos seres existentes nesta obra. E, ao confirmar tal liberdade, transforma o homem sua vida em uma grande aventura: pois apenas onde há riscos e possibilidades reais há aventura de verdade. Alegrias, dores, angústias, gozos… tudo não previsto por um Deus que limita nossa liberdade, mas sim criado por um Deus que, ao fazê-lo, a possibilita.

Curitiba, dezembro de 2018

O elefante na sala

ou A idade da razão – um problema de fundo nas discussões sobre educação pública.

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Pra mim, todo o problema da educação pública está colocado no dilema do Prof. Mathieu, protagonista do romance A idade da razão, de J-P Sartre: o professor é, ao mesmo tempo, um subversivo e um funcionário. Subversivo pois tenta implementar uma quebra de tradição entre os conhecimentos e ignorâncias que o aluno traz desde suas vivências, e funcionário pq o faz a soldo do poder enquanto trabalha em uma instituição regulamentada e que visa formar súditos e trabalhadores, e não livres pensadores…

O estado, o capital e os partidos já se apropriaram dos questionamentos radicais ideológicos. Esses geram dissensão na sociedade, e a dissensão é boa para o poder. Famílias desfeitas, solidariedades traídas, politização de afetos… tudo isso é vendido como material altamente revolucionário, mas só serve para conformar o indivíduo ao poder. Dividir para governar, alienar… o truque mais velho do mundo, segue sendo repetido pelo poder por um único motivo: ele funciona!

O professor-doutrinador, esse estelionatário, acredita estar formando cidadãos críticos. Na verdade, ele só forma consumidores e empregados. Pensa combater o sistema, enquanto o alimenta… o mundo precisa de mais lacradores! Afinal, os hambúrgueres não se fritam sozinhos! (ainda) Os filhos de famílias desfeitas revoltados “contra tudo que está aí” não tem NENHUMA instância intermediária entre a ação do capital e do estado e a própria existência. Nenhum grupo de apoio, nenhuma ajuda, nenhum patrimônio…

A verdade doída, o elefante na sala, é o seguinte: o poder estabelecido JAMAIS irá manter uma instituição que objetive sua crítica e superação. A educação pública, nos termos sonhados pelos doutrinadores de plantão, é uma contradição em termos… o aprendizado é autodidata, mesmo quando ocorre em sala de aula. Bons professores guiam nesse processo os (muitas vezes poucos) interessados.

Qualquer coisa além disso é subserviência.

 

Curitiba, novembro de 2018

O meteorito (terror da história)

Sobre o Museu Nacional…

Acabei de ler que dois meteoritos expostos desde 1891(!) sobreviveram ao incêndio. As condições de sua chegada ao país foram mais traumáticas do que as de um mero incêndio. Fósseis com milhões de anos, múmias com milhares, obras de arte e arquitetura com centenas não tiveram a mesma sorte…

Apagamos, em uma única noite, uma página imensa da história do Brasil. A cabeça do T-rex, as múmias articuladas, a Luzia, estrela das exposições dos 500 anos do Brasil!!! Me lembro das filas quilométricas para a exibição do molde de seu crânio na exposição Br500 no Ibirapuera em 2000. Tudo isso virou cinzas… Itens que, na natureza, duraram milhões de anos, não foram páreos para a barbárie do estado e do povo brasileiro.

Isso me faz pensar no meteorito… ao saber da sua sobrevivência, não pude deixar de pensar que seria poético seu retorno ao espaço. Que essa rocha retome seu rumo orbital ou errante no cosmos. Que ela volte a se chocar contra a Terra algum dia – isso vai acontecer mesmo, mais cedo ou mais tarde seremos atingidos por um meteoro… mas seria justo e poético que ESSE meteorito fizesse o serviço, que ELE voltasse para apagar da existência essa civilização de gente invejosa e mesquinha.

Certamente a cultura do resto do mundo não sentirá falta de nós, até pq boa parte daquilo que tínhamos por legado foi queimado hoje. Sem futuro, agora também não temos mais passado… estamos todos presos numa perspectiva de eterno presente, de terror da história.

A expressão “terror da história” é de Mircea Eliade. Ele fala dos povos que, desligados de suas perspectivas tradicionais, de seu lugar do mundo, de seu centro e elán, vagam pelo mundo desesperados pela falta de sentido de uma existência que, ao vir de lugar algum, também a nada se dirige. Resta o presente. Cumprir obrigações e rotinas a troco de nada. Viver para sobreviver, sem esperança, sem necessidade, sem um telos.

Vemos isso todos os dias… no desespero dos good vibes e carpe diem, na violência reinante, na barbárie da mídia e da política. E é triste… pq eu vivo aqui, pq meus filhos vão crescer aqui. O terror da história é torcer contra a vinda do meteorito, mas secretamente esperar sua chegada.

Armas e direitos humanos

Um argumento pelo reconhecimento ao direito de possuir e portar armas.

Uma das causas que me são caras dentre as em pauta nas discussões dos últimos tempos é a do armamento civil. E, na minha opinião, há um grande desvio de escopo quando se trata do assunto. Os desarmamentistas afirmam que o direito ao porte de arma não é solução para o problema da (in)segurança pública.

Pois bem… nesse aspecto, eles estão corretos.

O direito a andar armado não está fundamentalmente relacionado à criminalidade ou a sua ausência. Trata-se antes de mais nada de uma questão de liberdades civis e de exercício de direitos e deveres previstos moral e legalmente.

Todos os códigos morais e legais vigentes reconhecem o direito à vida e a autodefesa. Da Bíblia e do Catecismo da Igreja até a Declaração Universal de Direitos do Homem, todos são categóricos na afirmação de que cada ser humano, por sua dignidade inata, tem direito à vida, ao patrimônio e à liberdade de trabalho, pensamento, expressão e religião.

Do mesmo modo, a legislação civil e a moralidade obrigam o cuidado dos mais fracos pelos mais fortes. Pais exercem o poder familiar, direito/dever de zelo pelos filhos. Além disso, quem tem condições de evitar um crime e não o faz é moral e, em certas circunstâncias, criminalmente responsável pelo resultado.

Os maiores devem proteger os menores. Os mais fortes devem proteger os mais fracos e todos têm o direito e a obrigação de proteger a si mesmos, aos frutos do seu trabalho e às prerrogativas de suas liberdades pessoais.

Tudo isso me faz perguntar: como exercer todos esses direitos e obrigações sem deter os meios materiais para isso??? Como proteger a própria vida contra indivíduos armados sem também manejar uma arma? Como proteger meu patrimônio ou família sem poder reagir contra quem lhes atenta??? É daí que vem a necessidade de que o porte e a posse de armas sejam lícitos e mesmo incentivados.

O porte e a posse de armas são condições objetivas para o exercício de diversos direitos civis. Um direito que não pode ser exercido não é um direito, mas só um discurso na boca de algum político. Direitos, no mundo real, têm efetividade, e apenas a condição de igualar ou superar um agressor em força assegura o direito à vida, a proteção do patrimônio e da liberdade, o exercício do poder familiar e obrigação moral de cuidar dos mais fracos. Simples assim.

Não se trata de mera reação à problemas de segurança pública. Aliás, é bem possível que, com a revogação do ilegítimo estatuto os índices de homicídios aumentem em um primeiro momento – afinal, não serão apenas os criminosos que estarão atirando durante a prática de crimes. Mas e daí? Talvez seja esse um preço a ser pago por algo que vale mais do que uma pretensa segurança que o estado, ainda mais no Brasil, é incapaz de entregar.

No médio e longo prazo, os índices devem cair – afinal, o custo de oportunidade da prática de crimes sobe com a certeza da reação armada por parte das vítimas. Mas essa é uma vantagem lateral apenas. O argumento é o do exercício dos direitos humanos mais fundamentais, que são o da própria vida, da autodefesa, da proteção dos filhos e dos mais fracos. Nenhuma consideração de ordem política tem mais valor do que tais valores, pois são eles que fundam a própria ordem política.

Agosto de 2018

URSAL e os nominalistas

Ou como disfarçar uma conspiração

Nominalismo: doutrina que afirma que os fenômenos não têm existência real para além dos nomes que as designam. As coisas só existem, segundo esse tipo de pensamento, conforme seu significado linguístico.

O hoax de internet das últimas semanas foi a discussão provocada pelo “candidato” cabo Daciolo (um ex-psolista evangélico que se comporta como um cocainômano e faz o Bolsonaro parecer Churchill) depois que este perguntou a Ciro Gomes quanto à sua participação (e de seu partido) no Foro de São Paulo e na URSAL.

Esta sigla – União das Repúblicas Socialistas da América Latina – apareceu pela primeira vez em um artigo de 2001 da professora Maria Lucia Victor Barbosa. A autora então comentava de modo irônico discussões da esquerda no Foro de São Paulo quanto ao planejamento de integração continental por meio de organismos criados e mantidos pela esquerda, como o próprio Foro.

A sigla URSAL, portanto, nunca foi utilizada pelas esquerdas… mas e o fenômeno que ela descreve? As esquerdas planejaram sim a integração do continente sob a égide dos regimes de esquerda que surgiram desde o Foro de São Paulo. Entidades de Direito Internacional, no auge da dominação esquerdista ao final da década passada, chegaram a ser criadas por esses governos – especialmente a ALBA e a UNASUL – visando obter a integração continental.

Primeira bandeira da Ursal, digo, UNASUL

Ou seja: o plano é real, embora o nome seja uma piada. A ironia da discussão vem do fato de que, ao jogar com a ambiguidade da sigla falsa, afirma-se a falsidade do plano. Trata-se de uma tentativa clara de escamotear o que era um projeto mais ou menos público de trocar a soberania dos países do subcontinente por um regime socialista articulado desde o Foro de São Paulo. Quanto a tal tentativa, é ridículo falar em tentativa de conspiração – a leitura das atas de todos os encontros anuais do FSP deixa mais do que claro: a ideia sempre foi “recuperar na América o que foi perdido no Leste europeu”.

O que foi perdido por lá? A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas! Focar toda a discussão na sigla URSAL para bloquear a discussão pública quanto ao que de fato significa o projeto de poder das esquerdas no continente – por enquanto bloqueado por uma série de fracassos econômicos e eleitorais – é um baita truque retórico: o de quem esconde uma conspiração real fracassada sob o rótulo de teoria da conspiração.

Afinal, afirmam, se não houve URSAL – e a coisa nunca teve esse nome – não houve integração continental. A coisa sai do universo dos conceitos e, não podendo ser expressa, sob uma chuva de social shaming e memes, não pode ser pensada – o que é ideal para o momento de recuo estratégico enfrentado pelo Foro de São Paulo atualmente. Tornar a coisa inexprimível a “retira” da realidade: o Foro de São Paulo precisa voltar para as sombras, e essa fantasia de meme dos ursinhos carinhosos veio a calhar.

O velho truque do nominalismo: funcionou para Guilherme de Ockham, funciona para o Lula e seus seguidores…

Marielle, intervenção, tráfico e outros problemas…

A guerra de narrativas anda a solta, como sempre…

Eu, como já disse outras vezes, me guio por dois princípios ao analisar fatos políticos:

1- não falo do que não sei.
2- sigo o dinheiro, o poder e a fama ao invés das palavras dos envolvidos.

Por causa do princípio 1, eu não falei nada até aqui, e nem vou falar, a respeito do assassinato da vereadora do Rio. Ninguém sabe o que aconteceu, e um homicídio em um local que se encontra em guerra civil entre exército, grupos de narcoguerrilheiros e milícias é, antes de mais nada, um mistério a ser elucidado pela polícia em um inquérito. Quanto à vereadora, tudo que posso esperar é que as investigações corram normalmente e que os responsáveis sejam identificados e punidos.

História-das-Favelas-Cariocas-17

Vista do Complexo do Alemão. Esse lugar não vai ser urbanizado nunca…

Quanto ao tráfico… eu estava lendo a entrevista do Nem da Rocinha ao El País no sábado (aqui) O que ele diz lá é extremamente lógico: o modelo de tráfico de drogas vigente no Rio de Janeiro é ineficaz, violento e caro. No Rio, por conta da cultura local, da história do crime e da geografia, o crime precisa controlar territorialmente partes da cidade, que servem de esconderijo, território e reserva de mercado para os traficantes. Em outras grandes cidades há tanto tráfico quanto no RJ, mas os traficantes conseguem se concentrar em sua atividade principal, que é a venda de drogas, sem terem que financiar uma operação de ocupação urbana – pois é isso que existe nas comunidades cariocas – sem terem que agir como poder público, sem terem que comprar armas de guerra ou manterem milhares de soldados em suas folhas de pagamento.

Ou seja… a intervenção pode tornar o tráfico carioca MAIS lucrativo do que ele o é hoje. Se as FFAA forem bem sucedidas em sua missão e a lógica do domínio territorial for quebrada, as facções criminosas continuarão vendendo seus produtos, mas sem terem que distribuir cestas básicas, fuzis ou propinas em escala cavalar. Se os traficantes puderem vender a mesma quantidade de cocaína sem ter que manter toda essa estrutura de segurança e logística, eles vão ganhar mais, e não menos.

Para os barões do tráfico, portanto, a intervenção pode vir a ser positiva.

Isso sem falar no fato de que, durante as operações militares, a queda na oferta de drogas se fará refletida no preço – os preços das drogas vão subir durante a intervenção. Após a intervenção, se ela der certo, os custos envolvidos vão cair. De qualquer modo, o lucro aumenta…

Então essa disputa de narrativas parte de um erro crasso: o tráfico não é necessariamente inimigo das FFAA. Manter as coisas como estão não é lucrativo. Não é um bom negócio para ninguém – especialmente para os traficantes. Como disse o Nem da Rocinha, o modelo de negócios do PCC em SP é muito menos violento e muito mais lucrativo. Talvez quem ataca a intervenção esteja se colocando contra o interesse dos grupos que controlam o tráfico. Talvez esteja defendendo o interesse dos soldados do tráfico e das milícias, mas desagradando aqueles que comandam o esquema. São muitos interesses envolvidos e não dá para cravar quem se beneficia e quem é prejudicado com a guerra.

Há ainda o problema geográfico. A guerra, no RJ, se dá no meio da cidade pelo fato de que as áreas de morro na cidade são ocupadas por verdadeiras cidades dentro da cidade. Ali dentro, há de tudo – líderes comunitários interessados em obter posições de destaque dentro e fora de suas bases; pastores, ONGs; jovens com poucas oportunidades cooptados pelo dinheiro e pelo prestígio do tráfico; políticos que lucram com a vitimização dos pobres; políticos que lucram com as milícias – que vendem proteção contra os próprios crimes, como a máfia… o quadro é, antes de tudo, complexo: há várias formas de mal envolvidas, e cada uma precisa ser combatida de um modo específico. A tomada dos morros requer grandes obras de engenharia: abertura de avenidas, remoção de famílias, construção e manutenção de aparelhos públicos… a lógica de gueto e viela realmente impede fisicamente a presença do aparato estatal nas comunidades e a solução disso, se vier, vai levar décadas.

Quanto a história, todos conhecem. A narcoguerrilha foi formada e treinada por militantes de esquerda na década de 1960, quando os militares mantiveram presos comuns e guerrilheiros no presídio da Ilha Grande. O manual do guerrilheiro urbano, do (porco traidor) Carlos Marighela é o berço e a inspiração do comando vermelho – que traz dessa época de militância política a cor que carrega em seu nome. Isso em uma cidade onde existe uma proverbial admiração do malandro e da malandragem… onde governadores como Brizola afirmavam, em plena época de fortalecimento da guerrilha, que “no meu governo polícia não sobe morro”, onde boa parte da classe média enxerga os criminosos apenas como vítimas da sociedade, como excluídos e não como criminosos – o que é ofensivo para os pobres que, apesar de pobres, trabalham para manter-se e melhorar de vida.

índice

Aí vamos para o método: quem se fortalece com medidas que defendem o desarmamento e o fim das polícias? Quem ganha com a manutenção do modelo atual de criminalidade carioca? Quem não quer que o crime se normalize na cidade? (pois todas as grandes cidades têm tráfico, mas apenas o RJ, no Brasil, precisou entregar metade de seu território nas mãos da guerrilha em troca de cocaína). Resumindo… quem ganha com a lógica da segregação da cidade, dos guetos e da ocupação pela guerrilha ou pela milícia? Para quem manter as coisas como estão é bom?

Os grupos que se opõem à intervenção e à ação das forças de estado são os mesmos que treinaram os guerrilheiros e permitiram sua instalação nos morros… Sim, os mesmos. Inclusive o neto do Brizola é um dos vereadores do PSOL no Rio. A família que impedia a polícia militar de subir morros agora defende seu fim. Aqueles que, por tirarem alguma vantagem política do caos e da pobreza, ou por verem nela alguma semente revolucionária, defendem o status quo contra a intervenção são responsáveis pelo estado de coisas do presente.

Ao lado desse movimento, e até como decorrência lógica dele, existem as milícias. Essas surgem quando os elementos corruptos das forças de segurança do estado resolvem eliminar o intermediário na obtenção de propina para controlarem elas mesmas as comunidades, como forças de ocupação disfarçando muito mal o que seria a autotuela dos moradores. As milícias dependem da guerrilha para existir. Quem defende o status quo que beneficia o traficante do Comando ou da ADA defende a existência da guerrilha. Um é consequencia dialética do outro. Se o tráfico depende da corrupção, a corrupção depende do tráfico. Ambos têm interesses em comum, e são mais parceiros do que normalmente se imagina.

Por enquanto é por aí que eu vejo toda essa situação. A lógica da ocupação de bairros por guerrilheiros e milicianos precisa ser quebrada. O crime, antes de ser combatido, precisa ser normalizado. E os criminosos precisam ser tratados como criminosos, e não como vítimas – vítimas são os moradores dessas regiões, que se tornam mais pobres ao não levarem uma vida normal, ao carregarem um estigma, pelo fato de viverem em uma zona de guerra.

Quem é contra o fim do domínio territorial das quadrilhas; contra a ação legítima das FFAA ou ainda mantém aquele discurso do coitadismo social tem sangue nas mãos. O fato desse sangue ser de um PM, um traficante ou uma companheira de partido não muda esse fato – sangue é sangue.